O que o desfile da Louis Vuitton revela sobre o papel central da casa no luxo e na estratégia de marca
- Anelise Campoi

- 26 de jan.
- 4 min de leitura

O desfile da coleção masculina Louis Vuitton Outono–Inverno 2026 chamou atenção não apenas pelas roupas, mas por aquilo que sustentava toda a narrativa: o espaço.
Sob a direção criativa de Pharrell Williams, a casa apresentada não era um simples recurso cenográfico. Idealizada por Pharrell e desenvolvida em colaboração com o estúdio japonês NOT A HOTEL, a estrutura se posicionava como conceito, discurso e visão de futuro. Arquitetura, moda e experiência se fundiram em um único manifesto.
A casa não estava ali como pano de fundo. Ela era mensagem.
Quando a casa vira protagonista, o luxo muda de lugar
Quando a Louis Vuitton coloca o lar no centro da narrativa, não está apenas criando uma atmosfera estética sofisticada. Está traduzindo um movimento cultural profundo: a consolidação da At Home Economy.
A casa não “volta a ser importante”. Ela não deixa mais de ser protagonista.
Vivemos a ressignificação do espaço doméstico como território de permanência, identidade e valor. O long stay home — tempo estendido dentro de casa — redefiniu hábitos, impulsionou o mercado imobiliário durante a pandemia e consolidou novas formas de morar, trabalhar, consumir e se relacionar.
Hoje, luxo não está mais associado à ostentação externa, mas à qualidade da experiência cotidiana. Luxo é bem-estar emocional, tempo de qualidade, conforto sensorial, silêncio e espaços que acolhem, representam e funcionam.


Policrise, emoções e o novo papel do físico
Esse deslocamento de valor acontece em um período transformacional, marcado por profundas mudanças sociais, tecnológicas e emocionais. Vivemos a era da policrise — quando crises econômicas, ambientais, políticas e sociais se sobrepõem — ampliando o isolamento, a instabilidade emocional e a busca por pertencimento.
Em um mundo cada vez mais mediado por telas, algoritmos e inteligência artificial, o varejo físico assume um papel ainda mais relevante: oferecer presença, conexão humana e experiências que façam sentido. E isso não é um debate inédito. Pelo contrário, o tema vem sendo discutido nas NRF (National Retail Federation) em 2024, 2025 e agora em 2026.

Dados recentes mostram que emoções são o principal motor das decisões de consumo. A maioria dos consumidores considera necessidades emocionais altamente importantes, mas poucos se lembram da última vez que uma marca realmente os emocionou.
É nesse cenário que ganha força o conceito de emotioneering: projetar produtos, espaços e experiências capazes de provocar sensações reais — admiração, conforto, alegria, pertencimento — indo além da simples transação comercial.
À medida que a IA avança, cresce também a demanda por encantamento, criatividade e experiências multissensoriais. Lojas deixam de competir com o e-commerce em velocidade e passam a atuar como territórios de significado, narrativa e comunidade.
Não por acaso, a calma se consolida como o novo luxo.
Quando estratégia vira ambiente

Essa é uma tendência que já vem sendo observada há alguns anos. E grandes marcas estão se destacando justamente por transformar seus espaços em ativos estratégicos.
A Aritzia, marca canadense fundada em Vancouver em 1984 e hoje avaliada em mais de US$ 5 bilhões, construiu seu posicionamento a partir da lógica do habitar. Cada boutique é projetada de forma individual, incorporando materiais naturais, mobiliário personalizado e arte original. O espaço funciona como uma extensão da casa do consumidor — confortável, acolhedora e íntima.
O marketing acompanha essa abordagem: forte presença digital, influenciadores de lifestyle, stories interativos e drops anunciados com antecedência, sempre sob uma lógica de soft selling. O foco não está na pressão da venda, mas na construção de relacionamento.
No ponto físico, o serviço completa a experiência. Consultoras e estilistas atuam como facilitadoras, aprofundando vínculo, aumentando valor percebido e fortalecendo a marca.

A mesma lógica aparece na Aimé Leon Dore, fundada por Teddy Santis, que transforma herança cultural em identidade contemporânea. Com referências claras à cultura de Nova York — especialmente ao Queens — a marca incorpora hip-hop, basquete e o estilo preppy dos anos 90 tanto nos produtos quanto no espaço físico, que funciona como um manifesto cultural.
As parcerias com New Balance, Porsche, Woolrich e Timberland ampliam alcance sem diluir identidade. Pelo contrário: reforçam repertório, pertencimento e reconhecimento.
Espaço é posicionamento
No centro de todas essas transformações está o consumidor. E, cada vez mais, o espaço. O varejo físico deixa de ser apenas ponto de venda e passa a ser plataforma de experiência, emoção e significado. Marcas que compreendem esse movimento não competem por velocidade — competem por relevância.
Quando o cliente interage com o espaço, ele não apenas compra. Ele sente, reconhece e se conecta. Projetar espaços hoje é projetar estratégia. Estratégia de marca, de experiência e de valor no longo prazo.
Se você lidera, desenvolve ou investe em marcas e espaços físicos, a pergunta não é mais se o espaço da sua marca importa — mas como ele está pode aproveitar todo o seu potencial para gerar conexão, diferenciação e vantagem competitiva.




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