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Materialidade e textura viram linguagem estratégica em Milão

  • Foto do escritor: Anelise Campoi
    Anelise Campoi
  • há 8 horas
  • 7 min de leitura


Durante muitos anos, a materialidade foi tratada no design como etapa complementar do projeto — quase uma decisão final ligada apenas à estética ou ao acabamento. Mas o que se viu no Salone del Mobile 2026 aponta para uma mudança importante: a matéria deixa de ser suporte e passa a ocupar o centro da narrativa projetual.


Tema do Salone del Mobile em 2026 coloca materialidade como foco do design


Mais do que definir aparência, os materiais passam a comunicar valores, percepção, posicionamento e experiência.


O design contemporâneo parece caminhar para uma relação mais emocional, tátil e sensorial com os espaços e objetos. Em um cenário marcado por excesso digital, hiperestimulação visual e experiências cada vez mais aceleradas, a materialidade surge como elemento de reconexão física e humana.


“The Upcycled Gambit”, do @re_edit_lab no Isola Design District: resíduos de chá, plástico reciclado e andaimes de bambu ganham nova vida. Uma mesa de xadrez que transforma o descarte em textura, toque e consciência ambiental no Design Week Milano 2026


Texturas orgânicas, superfícies táteis, volumes artesanais, transparências luminosas e acabamentos menos artificiais constroem ambientes que convidam ao toque, à permanência e à experiência sensorial.


Essa mudança pôde ser percebida de forma emblemática em ativações apresentadas durante a Design Week Milano 2026. A Dior, por exemplo, transformou o histórico Palazzo Landriani em uma experiência imersiva onde matéria, artesanato e narrativa de marca se tornaram protagonistas.


A maison apresentou a coleção de luminárias Corolle, assinada por Noé Duchaufour-Lawrance, desenvolvida a partir da combinação entre vidro soprado de Murano e bambu trançado japonês — materiais que reinterpretam de forma sutil uma das linhas icônicas do New Look, criado por Christian Dior em 1947.




O espaço foi inteiramente cenografado com milhares de flores feitas à mão em fibra natural, evocando os jardins da Villa Les Rhumbs, residência de infância de Dior, reinterpretados por Korakot Aromdee e Vasana Saima.


Mais do que uma instalação estética, a ativação reforçou uma das mensagens centrais observadas em Milão: materiais, texturas e processos artesanais deixaram de ocupar um papel secundário e passaram a construir significado, identidade e experiência.


Noé Duchaufour-Lawrance segurando uma luminária Corelle 

A inspiração das luminárias Corelles veio de modelos do icônico  “New Look”, idealizado pelo próprio Christian Dior.


A matéria deixa de ser apenas visual. Ela passa a ser percebida pelo corpo.


Materialidade sensorial e o retorno do artesanal

Uma das leituras mais fortes observadas no Salone del Mobile foi a valorização de materiais capazes de transmitir acolhimento, profundidade e autenticidade.


Pedra, madeira, cerâmica, vidro, fibras naturais e tecidos estruturais apareceram não apenas como acabamentos, mas como linguagem de projeto.


A presença de superfícies táteis, tramas aparentes, texturas irregulares e materiais menos industrializados revela uma busca clara por experiências mais físicas e humanas.

Existe uma tentativa evidente de recuperar a percepção sensorial dos objetos em uma sociedade cada vez mais mediada por telas.


A textura volta a ocupar um papel central porque ela desacelera a experiência.

Ela exige aproximação, permanência e presença. Mais do que aparência, os materiais passam a carregar discurso:


  • autenticidade;

  • memória;

  • ancestralidade;

  • sustentabilidade;

  • permanência;

  • processo artesanal.


O artesanal deixa de aparecer apenas como acabamento decorativo e passa a estruturar o próprio objeto. Tecelagens aparentes, fibras naturais, tramas manuais, costuras expostas e superfícies trabalhadas manualmente ganham protagonismo em móveis, luminárias e objetos.


O tecido deixa de atuar apenas como revestimento e passa a funcionar como estrutura, linguagem construtiva e elemento arquitetônico do próprio produto.


Exposição INSIEME, no Fuorisalone 2026, colocou a foto de todos os artesãos envolvidos para valorizar o processo criativo e quem está por trás dele. 


Existe uma valorização crescente do processo, da técnica e da relação humana com a matéria.


Em um contexto marcado pela produção acelerada e pela padronização industrial, o handmade passa a comunicar exclusividade, identidade, tempo e conexão humana.

Essa leitura apareceu de forma muito clara em exposições como INSIEME, que deslocava o valor do design do objeto final para o processo coletivo do fazer, valorizando artesãos, técnicas e materiais como parte central da narrativa do projeto.


Essa valorização da matéria também apareceu de forma muito clara no pavilhão When Apricots Blossom, do Uzbequistão. Madeira, seda, cerâmica, feltro e junco foram utilizados não apenas como materiais construtivos, mas como linguagem sensorial e narrativa do projeto.


As superfícies táteis, fibras naturais, tramas artesanais e texturas orgânicas revelavam uma relação profunda entre materialidade, território e técnica ancestral. A matéria deixava de atuar apenas como acabamento e passava a comunicar permanência, memória, autenticidade e processo manual.


O projeto mostrava como textura e materialidade podem construir identidade espacial de forma muito mais potente do que a simples estética visual. Aqui, o valor do design não estava apenas na forma final dos objetos, mas na capacidade da matéria de carregar cultura, tempo e experiência humana.


Luminárias Corolle collab entre Dior Maison e Noé Duchaufour-Lawrance inspiradas no

icônico New Look - Fuorisalone 2026 



As luminárias também reforçam esse movimento. Cada vez mais escultóricas e colecionáveis, muitas peças apresentadas no Salone se aproximavam mais de instalações artísticas do que de objetos puramente funcionais.


Luminárias da Aposè, feita em parceria com a Floss, expostas no Fuorisalone 2026 



A luz deixa de ser apenas iluminação. Passa a ser atmosfera, presença e experiência material. A matéria assume protagonismo e comunica muito mais do que a forma.


Tons terrosos, verdes profundos e a natureza como linguagem


A paleta cromática observada em Milão reforça diretamente esse movimento.


FÒCO Living notes by Studiopepe - Fuorisalone 2026


Tons terrosos aparecem como base estrutural de grande parte dos ambientes e objetos apresentados. Marrons quentes, argilas, areia, terracota, caramelo e nuances minerais constroem atmosferas mais silenciosas, acolhedoras e naturais.


Material Anthology, por Faye Toogod para a Csaa Tacchini


Existe uma clara aproximação entre design e natureza — não apenas como estética decorativa, mas como referência de comportamento, matéria e sensação.


Coleção Hinode, de Vincent Van Duysen para a Koyori apresenta mobiliário para homenagear a natureza no Salone del Mobile



Os verdes profundos aparecem como contraponto sofisticado dentro dessas composições. Mais do que tendência cromática, os tons botânicos funcionam como extensão dessa busca contemporânea por equilíbrio, permanência e bem-estar.


Verdes e botânicos demonstram a natureza como linguagem de projeto na japone NII (acima) e na Mesa Lateral Curva da Patrícia Pasquini (abaixo) na Milano Design Week de 2026


A natureza deixa de aparecer apenas como elemento ornamental. Ela passa a atuar como linguagem de projeto.


Transparências quentes e luz como experiência material

Outro destaque importante foi a presença de transparências quentes em vidros, resinas translúcidas e superfícies luminosas.


Ao contrário das transparências frias e minimalistas que dominaram parte do design nos últimos anos, o que se viu no Salone foi uma abordagem mais sensorial e atmosférica.


Tons translúcidos e luminosos em tons âmbar, mel e dourado suave promovem uma atmosfera sensorial. Foto: Mesa Lateral Cogumelo da Doisdesign no Salone del Mobile. 


Tons âmbar, mel, dourado suave e nuances translúcidas criavam efeitos de profundidade, calor e luminosidade difusa. A luz deixa de atuar apenas como recurso técnico e passa a ser incorporada à própria experiência material do objeto.


Essas superfícies translúcidas produzem reflexos, sombras e camadas visuais que transformam a percepção do ambiente ao longo do dia.


Existe uma construção emocional através da luz.

A transparência passa a gerar acolhimento — não distanciamento.


O amarelo como ponto de energia emocional


Dentro de composições predominantemente neutras e naturais, o amarelo apareceu como uma das cores protagonistas da edição. Especialmente em tons intensos como Canary Yellow, a cor surge como elemento de contraste, energia e vitalidade.


Tons de amarelo intenso como Canary yellow foram destaque no Casina durante o Fuorisalone 2026


Mais do que tendência estética, o amarelo parece funcionar como resposta emocional a ambientes excessivamente sóbrios e minimalistas que marcaram os últimos anos. Ele introduz calor, otimismo e dinamismo sem romper completamente com a sofisticação das composições.


O interessante é que essa presença vibrante acontece quase sempre em equilíbrio com materiais naturais e paletas mais suaves.


A cor deixa de ser excessiva. Ela passa a atuar como ponto focal emocional.


O objeto deixa de ser apenas funcional e vira escultura


Outro movimento muito evidente no Salone del Mobile foi a valorização do objeto como presença escultórica. O mobiliário deixa de cumprir apenas uma função utilitária e passa a ocupar o espaço como elemento artístico e arquitetônico.


Cuba Corisco - feita por Collab do artista Paolo Ulian com Antonio Lupi


Mesas monumentais, bases orgânicas, geometrias fluidas, volumes assimétricos e peças de forte presença visual transformam sofás, cadeiras e luminárias em protagonistas dos ambientes.


Os objetos passam a construir narrativa espacial. Eles não organizam apenas função. Organizam percepção.


Fluid Re-Collection, por Linde Freya Tangelder presents em collab com a Cassina


Existe uma aproximação cada vez maior entre design, arte e escultura.

Muitas peças apresentavam formas quase intuitivas, como se fossem moldadas mais por gesto e matéria do que por racionalidade geométrica rígida.


Essa busca por organicidade revela também um afastamento do excesso de padronização industrial. O design volta a expressar imperfeição, identidade e singularidade.


Materialidade como experiência emocional


Mais do que uma tendência estética, o que se viu no Salone del Mobile 2026 foi uma mudança profunda na forma como o design entende o valor da matéria, do objeto e da própria função do mobiliário dentro do espaço.


O design contemporâneo parece caminhar para experiências mais sensoriais, conscientes e emocionalmente conectadas. Textura, peso, transparência, irregularidade, composição e processo passam a comunicar tanto quanto a forma final do objeto.


A matéria deixa de ser apenas acabamento. Ela passa a construir significado. Mas talvez uma das transformações mais importantes observadas em Milão tenha sido o desaparecimento da ideia do objeto isolado.


Estruturas modulares do sistema Lepid Kartell permitem versatilidade no design de ambientes.


Sofás deixam de atuar apenas como assento e passam a construir paisagens internas. Estantes deixam de ser apenas armazenamento e passam a funcionar como divisórias arquitetônicas. Objetos deixam de existir de forma independente e passam a operar como sistemas espaciais.


O mobiliário se aproxima cada vez mais da arquitetura.

Existe uma dissolução entre:

  • objeto;

  • espaço;

  • função;

  • circulação;

  • experiência.


O design deixa de criar apenas peças individuais e passa a estruturar atmosferas completas.

Essa lógica reforça uma leitura muito presente no Salone: o futuro do design parece menos ligado ao objeto como elemento autônomo e mais conectado à capacidade de construir relações espaciais, comportamento e permanência.


Talvez por isso a matéria tenha ganhado tanto protagonismo.


Porque ela deixa de ser apenas superfície visual e passa a atuar como elemento capaz de organizar percepção, sensação e experiência humana dentro do espaço.

 
 
 

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